Autor: Jeff O’Connor                       Tradução: Rafael Barros

O fato de os sacerdotes terem desempenhado papéis importantes e detido grande poder nas primeiras cidades demonstra a importância da religião para a sociedade suméria primitiva. Este artigo analisa as diversas funções desempenhadas pelos sacerdotes na sociedade suméria. Aborda suas responsabilidades religiosas e econômicas, bem como o contexto cultural mais amplo em que atuavam. Além disso, examina os poucos, mas intrigantes, dados conhecidos sobre a cosmologia suméria, incluindo sua mitologia da origem e os deuses que adoravam. Informações contextuais, opiniões de especialistas e exemplos extraídos de trabalhos acadêmicos contribuem para a profundidade deste artigo.

Sumerian Priest
Sacerdote sumério

Papel dos sacerdotes

Os sacerdotes teocráticos e as autoridades religiosas, que detinham o mesmo poder e honra que os reis antes da ascensão destes ao poder, eram os principais governantes das cidades-estado sumérias. Os templos serviam tanto como locais de culto quanto de comércio nas primeiras cidades sumérias (Kramer, 1963). Os sacerdotes atuavam como intermediários entre o povo e os deuses. Eles facilitavam a comunicação entre ambos e explicavam o que os deuses desejavam. Os sumérios acreditavam que seus deuses exerciam controle direto sobre todas as faces de suas vidas, por isso essa função era crucial (Jacobsen, 1976). No fim, os reis substituíram os sacerdotes como principais líderes da sociedade suméria, mas os líderes religiosos ainda detinham muito poder.

O sacerdote principal, frequentemente chamado de “En” ou “Ensi”, era responsável por todas as atividades religiosas e sagradas no templo. Diferentes membros do clero encarregavam-se de diversas tarefas. Por exemplo, suas responsabilidades incluíam cantar hinos, escrever e cuidar das estátuas dos deuses, nas quais se acreditava que residiam as almas dos deuses (Bottéro, 1992). Os templos empregavam um grande número de sacerdotes e sacerdotisas. Cada um tinha uma função específica que contribuía para os objetivos religiosos e culturais dos templos.

O “Sanga”, que supervisionava os negócios do templo, era também uma figura crucial na administração do templo. O Sanga era responsável por organizar a produção de tecidos de lã, administrar as terras pertencentes ao templo (que muitas vezes representavam cerca de um terço das terras da cidade) e supervisionar projetos de irrigação em grande escala, necessários para a sobrevivência da cidade (Postgate, 1992). Esse sistema de liderança em dois níveis garantia que o templo funcionasse harmoniosamente tanto como um edifício sagrado quanto como um importante empreendimento.

As cidades sumérias possuíam templos que se assemelhavam a pequenas cidades, na medida em que eram centros de atividade agitados. Havia muitos empregados domésticos e cozinheiros que cuidavam das necessidades diárias dos monges, como cozinhar e limpar. Havia também artesãos, escribas, guardas e artistas que trabalhavam nos templos e ajudavam no seu funcionamento. Uma parte importante da vida no templo consistia também em cuidar dos escravos, que realizavam trabalhos pesados em diferentes projetos (Leick, 2003).

As sacerdotisas eram muito importantes para os cuidados de saúde da cidade, pois utilizavam remédios à base de plantas para tratar problemas dentários e outras questões de saúde. Escritos antigos demonstram sua perícia na limpeza e extração de dentes, bem como no alívio da dor e da inflamação (Glassner, 2003).

Sumerian Priestess
Sacerdotisa suméria

Cerimônias e costumes religiosos

Não se sabe muito sobre os rituais pré-dinásticos, mas sabe-se que os templos costumavam realizar diariamente sacrifícios de alimentos, libações e outras cerimônias públicas. Festas realizadas mensalmente e uma vez por ano enriqueciam ainda mais a vida sagrada da comunidade. Durante o reinado do rei, o hieros gamos, ou “casamento sagrado”, era um dos eventos mais importantes. Frequentemente realizada nos palcos dos zigurates, essa cerimônia unia uma figura humana, geralmente o rei, a uma deusa, geralmente a alta sacerdotisa. No equinócio da primavera, o Hieros Gamos servia como um rito de fertilidade, equilibrando forças opostas e garantindo a prosperidade da cidade (Kramer, 1988).

Temos informações intrigantes, mas limitadas, sobre a cosmologia suméria, especialmente sobre sua história da criação. Os sumérios tinham um conjunto muito complexo de deuses responsáveis por diferentes aspectos da vida e da natureza. Entre eles, tinham grande reverência por alguns deuses e deusas principais. Os sumérios acreditavam que forças divinas afetavam constantemente o mundo, exigindo rituais e oferendas para manter boas relações com os deuses (Kramer, 1961).

Conclusão

O papel significativo que os sacerdotes desempenharam na sociedade suméria primitiva, bem como as complexas práticas do templo que ligavam as atividades religiosas às econômicas, demonstram o quanto a religião era importante para o povo. O poder dos sacerdotes ia além do aconselhamento espiritual; eles também tinham importantes funções econômicas e administrativas, necessárias para o funcionamento da cidade. Conhecer esses aspectos da vida suméria nos ajudará a compreender melhor como a religião moldou uma das primeiras culturas do mundo. Isso prepara o terreno para a complexa relação entre religião e sociedade que tem existido ao longo da história.

Referências

Bottéro, J. (1995).Mesopotamia: Writing, Reasoning, and the Gods. University of Chicago Press.

Glassner, J. J. (2003). The Invention of Cuneiform: Writing in Sumer. Johns Hopkins University Press.

Jacobsen, T. (1978). The Treasures of Darkness: A History of Mesopotamian Religion. Yale University Press.

Kramer, S. N. (1961). Sumerian Mythology: A Study of Spiritual and Literary Achievement in the Third Millennium B.C. Harper Torchbooks.

Kramer, S. N. (1963). The Sumerians: Their History, Culture, and Character. University of Chicago Press.

Kramer, S. N. (1988). History Begins at Sumer: Thirty-Nine Firsts in Man’s Recorded History. University of Pennsylvania Press.

Leick, G. (2003). Mesopotamia: The Invention of the City. Penguin Books.

Postgate, J. N. (1992). Early Mesopotamia: Society and Economy at the Dawn of History. Routledge.

Fonte: Connect Paranormal

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