A Biblioteca de Assurbanipal. “Acervo de outro mundo”

Autora: Débora Goldstern                           Tradução de: Rafael Barros

Aconteceu em 1847 quando o arqueólogo britânico de origem francês Austen Henry Layard realizou um dos achados mais intrigantes do século XIX, enquanto realizava escavações nos restos da célebre Nínive assíria. O descobrimento teve local no Palácio de Senequerib, onde Layard se deparou com mais de vinte mil tabuletas escritas em linguagem cuneiforme, herança da antiga biblioteca real fundada pelo rei Assurbanipal.

Embora boa parte do material se encontrava destruído, os especialistas mais cuidadosos de sua época foram capazes de reconstruir aqueles vestígios milenares, trazendo a luz informação sobre um passado até então desconhecido. Quando o conteúdo das tabuletas começou a vazar, certo alarme atravessou os textos bíblicos armazenados perante as novas revelações, que parecia colocá-los em questão.

Mas a controversa apenas começava. Outros escritores descreviam a história anterior do mundo que se pensava perdida. Foi um momento de muita emoção, e resultou num enorme avanço para ajudar a melhor compreensão, as civilizações já desaparecidas. E tudo devido à astucia e inteligência de um homem chamado Assurbanipal, que chegou a ser conhecido como um dos soberanos mais sábios de seu tempo.

Levantaremos o véu de Isis e conheceremos esse incrível episódio histórico. Ajustes seus cintos, está por vir uma viagem movimentada.

Assurbanipal. Senhor dos Quatros Cantos do Mundo

“Assurbanipal dedicou-se À tarefa de colecionar um exemplar de toda tabuleta cuneiforme valiosa da Babilônia. (Ele mesmo lia e escrevia a escritura cuneiforme, de modo que não tenha que depender de um modesto escriba). Assim, formou uma enorme biblioteca em seu palácio, cuidadosamente catalogada e em cada tabuleta levava seu nome escrito. Foi a maior biblioteca reunida até então, e ia a ser de enorme utilidade milhares de anos depois da morte do bibliotecário real”. A Biblioteca de um Rei Chamado Assurbanipal, 2018.

A diferença do Egito, cujo passado parece hipnotizar a todos os estudiosos interessados, o resto do oriente só experimentou certo ostracismo em termos de preferências. Tal é o caso da antiga civilização Assíria, que teve que esperar o monumental descobrimento de Layard, para provocar uma curva ascendente tão logo seja de interesse, embora sem nenhuma resistência. No entanto, a história de Assíria se remonta há 2.600 anos a. C. As primeiras referencias apontavam a existência de uma população de natureza errante, e dedicado às guerras expansionistas.

Em 2018 o Museu Britânico apresentou pela primeira vez os restos da lendária Biblioteca de Assurbanipal. Cortesia: elmercurio.com

Somente após a posse de Sargón II, é quando Assíria vai experimentar um novo renascer, alcançando grande impulso seu reinado após a anexação da Babilônia. Após seu falecimento, sua herança foi ocupada por Senaquerib, quem em vida deveria lidar com muitas revoltas. Logo trocaria o turno do Assarhaddón, cujo ascensão provocava uma pequena guerra civil entre irmãos. Até então esse soberano se encontrava casado com Esharra-hamma, sua conjugue amada com quem concebia vários filhos, um deles chamado Assurbanipal, e que uma morte inesperada o deixava viúvo. Foi um duro golpe para Assarhaddón, do qual nunca se recuperou, tornando-se um monarca sombrio, e taciturno. O certo é Assurbanipal, que significa, O deus Assur é o criador de um herdeiro, passou seus primeiros anos exilado junto a seu pai na Babilônia, onde seguramente começava sua paixão pela escrita e leitura. Como todo aspirante a soberano, Assurbanipal apreciou desde jovem de uma cuidadosa educação, buscando se focar no domínio da arte guerreira, administração imperial, assim como treinamento na caça real de leões, sem descuidar dos bons costumes. Seu treinamento também incluía chegar a se converter em sacerdote. Mas, onde Assurbanipal começava a brilhar foi no âmbito acadêmico, deslumbrado pelo conhecimento.

Assim o comenta Roger Palau em Assurbanipal, façamos honra ao temido grande rei assírio, referindo:

“Assurbanipal recebeu formação acadêmica, aprendeu a ler e escrever, em sumério, acádio e aramaico, estudou matemática e astrologia, base da religião assíria. Demonstrou tal inteligência e aptidão para a liderança que assumiria o mando da corte quando seu pai estava viajando”.

Um dos monumentos da celebre Nínive, retratada em 1853 pelo seu descobridor, Sir Austen Henry Layard. (Wikimedia Commons)

Com o tempo Assurbanipal seria conhecido como o rei da informação, e o primeiro monarca renascentista. Em sua carta privada, Assurbanipal aparece orgulhoso de sua sabedoria, ainda admitindo sua incapacidade para interpretar textos antediluvianos.

O estudioso monarca exclama:

“Resolvi problemas difíceis de multiplicação e divisão, sei ler os textos das antigas escrituras da Suméria, e a obscura linguagem da Acádia. Às vezes, a sensação de raiva porque não podia compreender as inscrições de tempos anteriores al Dilúvio”.

Embora Assurbanipal não era o primogênito, gozava do fervor de seu pai Assarhaddón, quem em vida lhe entregou os destinos de Assíria, não tanto da Babilônia, quem deixava no poder de um de seus irmãos. Tal decisão provocaria tensões sem fim. Mas o destino teria preparado uma surpresa para Assurbanipal. Vejamos.

A Biblioteca de Assurbanipal. Primeiro Registro Histórico

“Havia numerosos trabalhos sobre gramática, pois os assírios achavam sua linguagem tão complicada que multiplicaram esforços em reproduzir léxicos e gramáticas para explicar e simplificar melhor sua língua. Vale a pena notar que estes livros, escritos para ajudar o aprendiz assírio durante 2500 anos no passado, tem sido encontrado sem valor algum para o estudante atual no propósito de entender melhor dessa língua. Toda essa vasta coleção, recompilada com muito cuidado pelo rei, caiu com o palácio quando foi destruído pelo seu filho Saracus; foram quebrados a maioria dos fragmentos. O descobrimento da Biblioteca de Assurbanipal tem tido um significado notável, talvez esse tenha sido o descobrimento mais importante da Mesopotâmia”. Pedro Conste Sturla. A Biblioteca de Assurbanipal, 2016.

Estatua de Assurbanipal, um dos soberanos mais importantes de seu tempo, que se interessou na preservação do conhecimento. (Wikimedia Commons)

A partir do momento que a Dinastia Sargónida toma o poder em Assíria, originada antes da posse de Sargón II, bisavô de Assurbanipal, um novo ciclo domina o crescente império, caracterizado por uma forma inclinação para todo conhecimento acadêmico. Essas ideias ilustradas encontraram maior recebimento nos monarcas que sucederam o poderoso Sargón II, especialmente seu filho, Assarhaddón, seguido por Senequerib, quem começou a traçar o projeto de organizar uma biblioteca real, que com a chegada de Assurbanipal encontraria sua aceitação final. Uma das chaves para entender esse profundo desejo que isso levasse a um tesouro de todo o conhecimento existente, tem em Assurbanipal seu aliado definitivo. Devido a sua educação refinada, onde anão faltaram A literatura, ciências, matemática, e adivinhação, por mencionar algumas assinaturas, como motores de sua instrução, Assurbanipal, busca imprimir o império assírio, agora sob seu mandato, de uma nova visão, onde o campo de batalha não fosse a única fronteira para vencer. Trata-se de um homem que reverencia a escrita, e o vai demonstrar de longe. Para ele, é necessário cultivar a mente, e sob esse lema Assurbanipal estabelece a marca sua aventura intelectual. É o nascimento da primeira biblioteca do Oriente Próximo, como bem define o estudioso austríaco Adolph Leo Apenhei, considerado um dos maiores asiriólogos de seu tempo. Como primeiro plano Assurbanipal estabelece uma escola de escribas, a quem encomenda a preservação dos arquivos imperiais mais importantes. Começa aqui, uma busca frenética por todos os cantos do império para fazer com o valioso material.

O descobrimento da Biblioteca de Assurbanipal em 1847, trouxe um novo renascer para o estudo da história antiga. (Pinterest)

No indispensável Deuses, Tumbas e Sábios (1949), o grande escritor alemão C. W. Ceram, revela surpreendentes passagens sobre se constituiu a Biblioteca de Assurbanipal.

Detalha Ceram:

“Aquela biblioteca deu a chave do conhecimento de toda a civilização assíria – babilônica. O rei adquiria uma parte das placas como propriedade particular, e a maioria das conservadas são reproduções que mandou fazer em todas as comarcas de seu Império. A Shadanu, um de seus funcionários, lhe enviou a Babilônia instruções desse modo: «O dia que receber a minha carta, leva consigo a Shuma, a ser irmão Beletier, A Apia e aos artistas de Borsippa que conheces. Traz todas as tabuas que encontrar em sua casa, assim como as tabuas que estão no templo de Ezida’. Buscas as placas de valor cujas copias não existam na Assíria. Agora me escreve ao sacerdote supremo do templo a ao prefeito de Borsippa o dizendo que tu, Shadanu, levará as placas no deposito e que ninguém deve as ocultar. Se alguma placa ou um texto ritual se parece conveniente para o palácio, a busca, o toma e me envia»”.

Assim teria sido a biblioteca também chamada de Nínive, segundo reconstrução de alguns ilustradores. Cortesia: Fandom / Wiki

Continua narrando Ceram, como Assurbanipal reuniu todos os conhecimentos daquela época, onde em sua maior parte abundante textos sobre heresia, feitiços, fórmulas mágicas, e magia negra. É notável a abundância de textos preditivos, que mostram a dependência desses reinos para a pensamento mágico.

Também se registram obras como medicina, geografia, vocabulário, astronomia, filosofia, gramática, filosofia, matemática, e leitura de oráculos, entre outros conhecimentos.

Outros relatórios contêm anotações de listas de reis, notas de caráter histórico, notícias políticas, e inclusive poesia, cantos épicos, lendas mitológicas e hinos. A joia da coroa o constitui a epopeia de Gilgamesh, considerada a história universal mais antiga do mundo. Uma verdadeiro incunábula do passado. Voltaremos logo com essa referência, já que na biblioteca aparece textos que informam como conseguir a imortalidade.

A dinastia Sargónida significou uma etapa para a ilustração de seu templo. (Wikimedia Commons)

Outros estudiosos, mencionam, catálogos completos sobre plantas, arvores e minerais, assim como uma classificação especial sobre zoologia, dividida em família e gênero. O material de referência especial o constituía dicionários bilingues, obras esboçadas em sumério – babilônico. A biblioteca foi compartimentada em várias seções, onde se acumulavam tabuletas de argilas quadradas de ambos os lados, assim como empilhadas e ordenadas uma sobre a outra. Todo o material se encontrava paginada, e transportava uma espécie de colofão, recurso que permitia uma rápida identificação graças a um conjunto de informação chave, como nome do escriba, tema, e número da tabuleta que a vinculava. Inclusive se crê o próprio Assurbanipal se havia encarregado de confeccionar alguns desses registros.

A separação das obras se enumerava por gênero temático, com etiquetas amarradas às tabuletas (considerado hoje esse método, como percursor dos metadados). A Biblioteca de Assurbanipal chegou a contar com mais de 100.000 tabuletas escritas em cuneiforme, constituindo em seu dia, um acervo monumental, de enorme inspiração e valor incalculável, e cuja localização repousava num dos pisos altos do chamado Palácio de Senaquerib.

A arte assíria segue sendo objeto de adoração mundial. Cortesia: luisvars.com

A consulta à biblioteca somente era permitida a uma pequena elite selecionada, e inclusive as tabuletas, se herdavam dentro de uma mesma família. Geralmente, a biblioteca era protegida por oficiais encarregados, e nem sequer os escribas podiam consultar o material sem supervisão pessoal. Assurbanipal parecia decidido a preservar seu legado, evitando a biblioteca fosse objeto de saque. E o método deu certo.

Os Arquivos de Borsippa e a questão Anunnaki

“Beroso pega seus relatos dos arquivos da Babilônia-Borsippa e esses mesmos arquivos, enquanto à criação e as primeiras idades, reproduzem revelações inscritas em tabuletas pelos primeiros homens-peixe, Oannes, o inventor das letras, das ciências e das artes, o fundados das leis, das cidades e de toda a civilização”. Joseph Bidez, Les écoles chaldéennes sous Alexandre et les Séleucides,1935.

Textos como o de Gilgamesh, também referido como a tabuleta do Dilúvio, onde se narra a descida do herói sumério para o submundo em busca da imortalidade, assim como o de Enuma Elish, invocando o mito da criação, ambos constituem arquivos sagrados, e de um valor imenso para qualquer investigação, Curiosamente um dos arquivos mencionados nas crônicas de Assurbanipal é o de Borsippa, cidade localizada na antiga Babilônia, berço caldeu consagrada ao culto do deus Nebu.

Ali é dito que existiu um templo onde estudava o sábio Beroso, o caldeu, a quem se lhe atribui uma obra desaparecida, a enigmática Babylionyaka (história da Babilônia). A obra refletiria a história proibida da humanidade, e seus primeiros instrutores, denominados por Beroso como os Akpallus, os misteriosos homens peixes. Em Borsippa também se encontra do zigurate Bit-Zida, vinculado à Torre de Babel. Na sua discutida saga, o desaparecido autor de origem russa judeu Zecharia Sitchin, chama os Akpallus, os reais Anunnaki (filhos de Anu ou também das estrelas)

Conclusão

Quinze anos após a morte de Assurbanipal, a imponente Nínive foi destruída por terríveis Medos, cedendo à violência destrutiva, onde a biblioteca se viu severamente afetada. Mas contra todos os prognósticos sobreviveu a séculos mais tarde voltou a emergir triunfante após o achado de Austen Henry Layard, responsável de seu novo nascimento. Êxito, que ainda celebramos.

Biografia

Livros:

  • Ceram, C.W. (1986). Dioses, Tumbas y Sabios. New York, Knofp.
  • Layard, Austen Henry (1854). Descubrimientos entre las ruinas de Nínive y Babilonia.
  • Oppenheim, A.L. (1964). Ancient Mesopotamia: Portrait of a Dead Civilization. Chicago: Chicago University Express.
  • Smith, George. (1871). History of Assurbanipal. Translated From The Cuneiform Inscriptionss. Londres: Harrison and Sons.

Sites:

  • ABC Cultura

Alonso, Iván. Asurbanipal, el erudito y despiadado rey que gobernó el imperio asirio. https://www.abc.es/cultura/arte/abci-asurbanipal-erudito-y-despiadado-goberno-imperio-asirio-201901020124_noticia.html  

  • Acento

Conde Sturla, Pedro. La biblioteca de Asurbanipal.

https://acento.com.do/opinion/la-biblioteca-asurbanipal-8365339.html

  • Almacén del Conocimiento

Arsubanipal, El rey Asirio, Erudito, Malvado y Sociópata.

https://elalmacendelconocimiento.com/asurbanipal-el-rey-asirio-erudito-malvado-y-sociopata/

  • Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes

Oliva, Juan. George Smith y la biblioteca de Ashurbanipal.

https://www.cervantesvirtual.com/obra/george-smith-y-la-biblioteca-de-ashurbanipal-0/

  • Bibliotecario

Civallero, Eduardo. Arsubanipal y su Biblioteca.

http://www.bibliotecario.org/2015/07/de-tablillas-y-papiros-v-asurbanipal-y.html

  • Cinco Noticias

Gargantilla, Pedro. La primera biblioteca del mundo no contenía ni un solo libro.

https://www.cinconoticias.com/primera-biblioteca-del-mundo/

  • Cultura Irapuato

Asurbanipal, la primera biblioteca del mundo.

https://culturairapuato.com/asurbanipal-la-primer-biblioteca-del-mundo/

  • Debabilonia

La Biblioteca de Asurbanipal.

https://debabilonia.info/ninive/la-biblioteca-de-asurbanipal/

  • Diarios Sur

El brutal Asurbanipal reina en el Museo Británico.

https://www.diariosur.es/culturas/brutal-asurbanipal-asirio-reina-museobritanico-20181109232334-ntrc.html

  • El Arca de los Dioses

Biblioteca de Arsubanipal.

https://elarcadelosdioses.wordpress.com/2015/05/21/biblioteca-de-asurbanipal/

  • El País

Los tesoros de Asurbanipal, erudito y dueño del primer imperio de la antigüedad.

https://elpais.com/cultura/2018/11/07/actualidad/1541597377_286320.html

  • Historiae

Alicarnaso, Herodoto de. La Biblioteca de Nínive, la mayor de la Antigüedad.

https://historiaeweb.com/2018/08/22/biblioteca-de-ninive/

  • Ila Basmati

¿Odiaba Asurbanipal a los leones?

https://elblodgeilabasmati.com/2021/01/24/odiaba-asurbanipal-a-los-leones/

  • Naukas

HIspa. La tablilla de Ammisaduqa, una mirada al cielo de hace 3.700 años.

https://naukas.com/2010/08/02/ammisaduqa/

  • Reader Digital Books

Arcilla rota bajo los montículos.

https://reader.digitalbooks.pro/content/preview/books/144513/book/OEBPS/T-9788491993179_CAPITULO.indd2.html

Fonte: CODIGO OCULTO

Publicado por Rafael Barros

Analista de sistemas apaixonado pelos estudos da teoria dos antigos astronautas e pesquisador da Associação Mato-grossense de Pesquisas Ufológicas e Psiquicas- AMPUP - MT

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: