Autor: Jeff O’Connor Tradução: Rafael Barros
Gigantes no Peru: Pontos chaves
- Os mitos peruanos sobre gigantes mesclam histórias tanto da época indígena como da colonial. Eles falam de seres enormes que os deuses criaram e depois destruíram.
- Na mitologia antiga, os gigantes eram fortes, mas não muito inteligentes, e muitas vezes se alimentavam de outras pessoas.
- Os invasores espanhóis usaram ideias bíblicas para alterar esses mitos e adequá-los aos seus planos de conquista.
- As enormes construções arqueológicas levam as pessoas a especular sobre quem as construiu.
- As pessoas continuam a ver gigantes em áreas distantes até hoje, retratando-os como protetores do meio ambiente.
- Existem muitas explicações, que vão desde analogias culturais até declarações controversas sobre civilizações enterradas.

Introdução
As misteriosas histórias de gigantes no Peru são uma combinação fascinante de mitos nativos, histórias coloniais e relatos modernos que continuam a interessar tanto aos habitantes locais quanto aos pesquisadores. Essas histórias abrangem milhares de anos da história cultural peruana, começando com tradições orais anteriores à chegada de Colombo e continuando com relatos de avistamentos que ainda hoje ocorrem em áreas rurais do país. As gigantescas histórias do Peru nos dão uma visão única de como os mitos antigos mudam ao longo do tempo, mantendo algumas de suas ideias essenciais. Elas mostram tanto os medos culturais quanto os esforços para explicar eventos estranhos que aconteceram no complicado passado do país.
Visão geral
Os incas e outras sociedades antigas do Peru têm ricas tradições míticas que frequentemente incluíam gigantes como as primeiras entidades a viver na Terra antes da humanidade. Na lenda inca, o deus Viracocha criou esses seres, chamados de “Jatun Runa” ou “grande povo”, mas eles acabaram sendo destruídos porque eram muito orgulhosos e não seguiam as regras. Tribos costeiras peruanas como os Moches e os Chimús também contavam lendas sobre gigantes. Registros arqueológicos ainda testemunham as enormes construções que esses gigantes supostamente ergueram. Nessas histórias antigas, os gigantes eram geralmente vistos como forças primitivas e caóticas que precisavam ser controladas antes que a civilização humana pudesse crescer (Russell, 2016).
Diversas comunidades peruanas tinham várias crenças sobre o comportamento desses gigantes mitológicos, mas havia algumas semelhanças entre elas. Os gigantes eram considerados fortes, mas não inteligentes, então pessoas ou deuses inteligentes podiam derrotá-los. Em certas histórias do norte do Peru, dizia-se que os gigantes consumiam muita comida, incluindo carne humana, o que os tornava predadores assustadores dos primeiros grupos humanos. Contos costeiros às vezes mostravam gigantes fazendo coisas sexuais estranhas ou tendo características reprodutivas incomuns. Isso pode ter ocorrido devido a tabus ou porque as pessoas estavam tentando demonstrar como as comunidades vizinhas eram diferentes.
História e avistamentos
Quando os conquistadores espanhóis chegaram às Américas no século XVI, eles misturaram os mitos nativos sobre gigantes com as ideias europeias sobre gigantes. Isso levou à criação de histórias híbridas que serviam a diferentes agendas políticas e religiosas. Escritores espanhóis como Pedro Cieza de León escreveram sobre mitos locais de gigantes que viviam em partes do Peru. Eles viam essas histórias através de uma lente bíblica que as ligava aos Nefilim relatados no Gênesis. As autoridades coloniais frequentemente promoviam essas ligações porque elas ajudavam a justificar a invasão, alegando que os povos nativos precisavam de proteção contra essas entidades terríveis. Durante esse período, a mitologia dos gigantes mudou significativamente. Eles passaram de seres espirituais vagos a gigantes reais cujos restos mortais poderiam ser encontrados (Sowers, 1981).
As descobertas arqueológicas no passado do Peru têm despertado interesse em grandes lendas de tempos em tempos. Os enormes blocos de pedra que se encaixam perfeitamente em locais como Sacsayhuamán, perto de Cusco, que pesam até 200 toneladas, fizeram as pessoas se perguntarem se havia construtores sobre-humanos. Durante as décadas de 1940 e 1950, circulavam rumores sobre a descoberta de enormes restos mortais em cavernas peruanas. No entanto, as autoridades científicas não confirmaram a maioria dessas alegações. Essas “evidências” físicas criaram um ciclo de retroalimentação com a mitologia, o que tornou as grandes histórias mais convincentes do que apenas folclore, especialmente para as pessoas que não acreditavam no que os arqueólogos diziam (Pratt, 2010).
A maioria dos avistamentos modernos de gigantes no Peru ocorre nas montanhas dos Andes e na floresta amazônica, ambas longe da influência colonial. Os moradores da região de Ucayali falam sobre o encontro com Maykujàypa, gigantes da floresta com mais de dois metros e meio de altura que se comunicam assobiando e sequestram aqueles que se aventuram muito em seu reino, desde meados do século XX (Redfern, 2015). Pessoas que falam quíchua ao redor do Lago Titicaca também dizem ter visto Hatu Runa, que, segundo elas, são seres territoriais que protegem ruínas antigas e caminhos subterrâneos. Essas histórias modernas geralmente se concentram na função dos gigantes como defensores do meio ambiente, o que sugere que seu propósito mítico mudou ao longo do tempo para abordar questões ambientais modernas.
Os eventos gigantescos mais comentados recentemente aconteceram na década de 1990, quando vários grupos de turistas no Vale Sagrado disseram tê-los visto criaturas humanoides muito altas observando-os de montanhas distantes antes de desaparecerem rapidamente. Esses relatos receberam muita atenção nos primeiros fóruns da internet sobre criptozoologia e mistérios antigos, o que ajudou a espalhar as histórias dos gigantes peruanos para pessoas fora do Peru. Curiosamente, esses avistamentos modernos geralmente descrevem os gigantes vestindo roupas que se parecem com roupas incas antigas. Isso sugere que as pessoas os veem mais como ancestrais do que como inimigos. Apesar do aumento do número de turistas e das tecnologias de vigilância, ainda são escassas as evidências fotográficas claras.

Análises
Existem diversas teorias sobre porque as grandes histórias continuam vivas no Peru, desde as sobrenaturais até as científicas. Algumas teorias ganharam popularidade ao longo do tempo, enquanto outras perderam seu apelo. Os antropólogos geralmente acreditam que os grandes mitos são metáforas culturais para coisas como o caos primordial, as forças naturais ou o encontro com grupos de fora da cultura, e não histórias reais sobre monstros gigantes. Alguns cientistas acreditam que os primeiros peruanos podem ter visto fósseis de megafauna e acreditado que eram ossos de gigantes humanoides que viveram na Terra. Alguns arqueólogos acreditam que as histórias sobre grandes construtores podem ter surgido do espanto das pessoas com as habilidades de engenharia dos antigos peruanos, cujos métodos ainda não são totalmente compreendidos pela ciência atual.
A ideia paleontológica fornece uma forte razão para as inúmeras histórias em todo o planeta, mesmo no Peru. Essa perspectiva sugere que, quando os povos antigos descobriram grandes ossos fossilizados de megafauna extinta, como mastodontes ou enormes preguiças terrestres que uma vez habitaram a América do Sul, eles podem ter acreditado que esses ossos pertenciam a gigantes humanoides. A descoberta desses restos mortais em cavernas ou áreas expostas pela erosão poderia ajudar a esclarecer algumas lendas regionais sobre gigantes, particularmente aquelas que descrevem criaturas com características físicas incomuns que podem ter origem em interpretações equivocadas da anatomia animal. Folcloristas encontraram tendências comparáveis em civilizações em todo o mundo. Por exemplo, descobertas de fósseis tendem a ocorrer em locais onde há muitos mitos importantes. Isso sugere que as pessoas em todos os lugares tendem a atribuir características humanas a coisas que não compreendem.
As interpretações psicológicas acrescentam outro nível de conhecimento às histórias épicas, ao analisá-las através do prisma das projeções culturais e dos arquétipos comunitários. De acordo com os analistas junguianos, os gigantes representam nossas ansiedades mais básicas em relação ao ambiente natural avassalador e nossos esforços para trazer ordem ao caos. Esse argumento faz mais sentido quando se observa como as lendas peruanas sobre gigantes frequentemente têm temas relacionados à civilização vencendo os elementos primordiais. Isso pode ser um reflexo de como o ego das pessoas se desenvolve em nível social. Antropólogos cognitivos dizem que o tamanho enorme é um atalho mental comum para o poder em todas as culturas. Isso torna os gigantes uma forma benéfica de expressar medos sobre forças que não podem ser controladas, como desastres naturais ou opressão política.
O método etno-histórico analisa as histórias gigantescas como memórias de interações reais entre diversos grupos de pessoas no passado. Essa teoria afirma que algumas histórias peruanas sobre gigantes podem ser baseadas em memórias de encontros com grupos de estrangeiros muito altos, com as diferenças de altura aumentando com o tempo, à medida que eram contadas e recontadas. Pesquisadores encontraram relatos escritos de indígenas amazônicos que viram exploradores europeus extraordinariamente altos pela primeira vez e os descreveram de maneiras bastante semelhantes à mitologia convencional sobre gigantes. Essas histórias podem ter persistido devido ao trauma cultural resultante das experiências de conquista, com os gigantes servindo como símbolos das tropas invasoras que trouxeram mudanças nos modos de vida tradicionais, particularmente durante o tumultuado período colonial.
Alguns especialistas que estudam língua e cultura acreditam que erros de tradução e diferenças na forma como o Quéchua, o Aymará e as línguas europeias pensam sobre as coisas podem ter ampliado as histórias gigantescas. Quando cronistas espanhóis que não conheciam as línguas locais traduziram literalmente as línguas andinas, eles podem ter transformado descrições figurativas em histórias que pareciam reais sobre seres enormes. Palavras que poderiam significar grandeza espiritual ou moral, em vez de tamanho físico, podem ter sido mal interpretadas, fazendo parecer que havia uma conexão entre os mitos nativos e as tradições gigantescas europeias, quando na verdade não havia. A confusão linguística pode ter aumentado a autenticidade de algumas histórias, levando ao seu reconhecimento contínuo como fatos históricos.
Embora a maioria dos acadêmicos não acredite na teoria dos antigos astronautas, ela é muito comum quando se fala dos gigantes peruanos. As pessoas que acreditam em grandes lendas dizem que elas guardam memórias de alienígenas que vieram à Terra e construíram sítios megalíticos perfeitamente projetados em todo o Peru com sua alta tecnologia. Essa visão controversa diz que a aparência estranha, o grande poder e o vasto conhecimento dos gigantes clássicos são, na verdade, descrições de entidades tecnologicamente avançadas que os povos antigos não compreendiam. Essa hipótese não tem nenhuma base científica, mas é popular porque as pessoas estão interessadas em encontrar outras maneiras de explicar os enigmas arqueológicos e não gostam do fato de que existem falhas em nossa compreensão das maravilhas da engenharia do passado.
Uma explicação geológica mais detalhada relaciona as grandes histórias ao terreno acidentado e aos frequentes terremotos do Peru. Essa perspectiva afirma que eventos naturais como deslizamentos de terra, erupções vulcânicas e terremotos — coisas que acontecem com frequência nos Andes — eram provas reais de que existiam entidades enormes capazes de alterar a forma do terreno. As cosmologias indígenas frequentemente afirmavam que seres poderosos causavam esses eventos. Por exemplo, histórias de gigantes jogando pedras ou batendo os pés podem ter sido usadas para explicar o que as pessoas viam acontecendo sob o solo. A teoria se fortalece, pois há muitas lendas gigantescas em locais com características geológicas espetaculares e desastres naturais que acontecem com frequência. As evidências sugerem que essas lendas ajudam as sociedades a lidar com os riscos ambientais e a se preparar para eles.
Arqueólogos alternativos que acreditam que os gigantes são uma espécie hominídea real ou uma sociedade antiga avançada cuja presença foi sistematicamente ocultada estão apresentando noções mais desafiadoras. Na maioria das vezes, essas interpretações vinculam os gigantes peruanos a histórias de todo o mundo sobre civilizações perdidas, anjos caídos Nefilim, alienígenas que vieram à Terra ou a origem dos seres humanos, que são muito diferentes do que a maioria dos cientistas concorda. Embora essas teorias careçam de evidências reais para sustentá-las, elas ainda são culturalmente significativas, particularmente para empresas de turismo e novos movimentos religiosos que incorporam uma grande mitologia em suas crenças. A maioria dos cientistas não acredita nesse tipo de afirmação, mas admite que ainda existem enigmas arqueológicos reais sobre como os antigos peruanos construíram suas obras (Aveni, 2000).
Conclusão
Os gigantes do Peru, sejam eles vistos como pessoas reais ou símbolos culturais fortes, moldam a identidade peruana e as histórias dos visitantes no século XXI. A paisagem arqueológica do Peru está repleta de mistérios reais que mantêm vivas as histórias dos gigantes na mente das pessoas. Por exemplo, as enormes linhas de Nazca, que só podem ser vistas de cima, e os monumentos megalíticos cuidadosamente construídos que se espalham pelos Andes. Essas lendas são mais do que apenas superstições; elas fazem parte de um legado cultural complexo que conecta os modos de conhecimento indígenas com influências coloniais e dúvidas modernas. Enquanto o Peru luta para descobrir o que significa ser um país multicultural, os gigantes que, segundo se diz, vagavam por suas paisagens ainda são símbolos fortes tanto do enorme passado do país quanto de seus esforços contínuos para reunir muitas narrativas históricas em uma única história nacional.
Referências
Aveni, A. F. (2000). Between the lines: the mystery of the giant ground drawings of ancient Nasca, Peru. University of Texas Press.
Pratt, D. (2010). Lost civilizations of the Andes.
Redfern, N. (2015). The Bigfoot Book: The Encyclopedia of Sasquatch, Yeti and Cryptid Primates. Visible Ink Press.
Russell, G. (2016). An Introduction into Earth Giants. Rupkatha Journal on Interdisciplinary Studies in Humanities, 8(1), 322-354.
Sowers, G. F. (1981). There were giants on the Earth in those days. Journal of the Geotechnical Engineering Division, 107(4), 383-419.
Fonte: Connect Paranormal





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