Autor: Jeff O’Connor Tradução: Rafael Barros
Ao longo da história, várias religiões e países retrataram e compreenderam Lilith de diversas maneiras. A história de Lilith ainda fascina tanto pesquisadores quanto fãs, desde suas origens como deusa do vento e das tempestades nos antigos mitos mesopotâmicos até seu papel como primeira esposa de Adão no folclore judaico. Muitas mulheres agora veem Lilith como um símbolo de força porque ela desafiou as normas sociais para os homens e foi associada à sexualidade e à liberdade. A complexidade de Lilith contribui para o estudo da mitologia e demonstra a interpretação evolutiva das histórias ao longo do tempo.
Os primeiros textos antigos, como o épico sumério de Gilgamesh, falam de Lilith como um espírito que traz doença e morte. Jeffrey Burton Russell escreveu em 1987 que Lilith representava os antigos medos das forças naturais fora de controle e as ameaças que elas representavam para a sociedade. Esses mitos frequentemente a retratam como uma criatura aterrorizante, que só aparece à noite e ronda a selva em busca de vítimas. Isso é um reflexo dos antigos medos de que coisas assustadoras se escondem na escuridão.
A mitologia judaica conta a história de Lilith com mais detalhes e enfatiza sua importância. Em 1974, Gershom Scholem escreveu que o Alfabeto de Ben-Sira, um livro antigo, a mencionava como a primeira esposa de Adão. Esse livro aprofunda a história da criação de Lilith a partir da mesma terra que Adão, estabelecendo-a como sua equivalente. Mas o relacionamento deles rapidamente se desintegra porque ela se recusa a seguir as regras de Adão, especialmente no que diz respeito às relações sexuais. A exigência de Lilith de que ela não fique sempre deitada sob Adão enquanto fazem amor é uma forte declaração de liberdade e igualdade que a leva a deixar o Éden. Scholem diz que sua saída, ao dizer o Nome Inefável de Deus, mostra o quão forte e rebelde ela é, tornando-a diferente das outras mulheres nas histórias bíblicas e mitológicas.

Lilith e os Demônios
Os livros cabalísticos detalham a conexão de Lilith com os demônios com mais detalhes. Em 1990, Raphael Patai observou que essas obras místicas retratam Lilith como casada com Samael, o anjo da morte. Diz-se que eles governam juntos muitos espíritos malignos, e Lilith é frequentemente apresentada como uma bruxa sedutora que tem como alvo homens e bebês. Essa imagem ganha vida em livros como o Zohar, que a vê como uma rainha dos demônios que representa os perigos da sexualidade desenfreada e o medo do desconhecido. Patai diz que o papel de Lilith nesses textos é questionar a ordem estabelecida e defender as forças caóticas que se opõem à criação de Deus. Como ela age à noite e tenta seduzir homens adormecidos, ela é semelhante à imagem do súcubo, um demônio que dorme com homens e faz sexo com eles.
A demonologia cristã medieval também vê Lilith como uma sedutora poderosa e perigosa, frequentemente confundindo-a com outros demônios ou espíritos femininos. Essas histórias, refletindo os medos da sociedade em relação à sexualidade e independência das mulheres, aumentam seu poder de seduzir e corromper. Aprendemos sobre os perigos do desejo descontrolado e do uso indevido do poder feminino através de seu papel como um súcubo, um monstro que entra nos sonhos dos homens para se envolver em relações sexuais.
O Islã tem menos referências diretas a Lilith, mas elas ainda estão presentes na forma de espíritos noturnos semelhantes ou gênios, chamados de “Qarinah” ou “Ghul”. Essas entidades têm semelhanças com Lilith, como sua associação com a escuridão, a sedução e o dano às crianças. Mesmo que não sejam exatamente iguais, as similaridades demonstram como esses medos clássicos são comuns e duradouros, bem como diferentes culturas lhes atribuíram personalidades.
As interpretações feministas atuais veem Lilith como um símbolo do poder das mulheres e da resistência contra as hierarquias masculinas. Quando reconsiderada, ela se transforma de uma figura maligna em uma figura forte e independente. Escritoras e pensadoras feministas, como Judith Plaskow, afirmam que a recusa de Lilith em ceder a Adão é um exemplo de forte autoafirmação. Essa nova versão desafia as histórias antigas e nos dá uma imagem diferente do que as mulheres podem fazer e como devem agir.

Lilith e os Vampiros
Em versões e interpretações posteriores, a ligação entre Lilith e os vampiros torna-se mais clara. Bruce F. Kaplan discute em seu livro de 2002 como a literatura moderna e os gêneros de terror frequentemente retratam Lilith como a mãe de todos os vampiros. Essa representação de Lilith deriva de sua atividade noturna e propensão para a caça, uma característica que lembra a imagem da súcubo. Livros e filmes modernos frequentemente retratam Lilith como a mãe dos vampiros, embuti-los com seu espírito inquieto e fome insaciável. O seriado True Blood e a série de quadrinhos The Sandman retratam Lilith como uma formidável líder vampira que comanda seus companheiros vampiros. Kaplan diz que essa nova versão da história de Lilith adiciona uma nova camada à sua lenda e a torna um símbolo da batalha constante entre a luz e a escuridão, a ordem e o caos.
Normalmente, as pessoas retratam Lilith como uma ameaça às crianças, especialmente aos bebês. Essa perspectiva deriva de preocupações históricas com o parto e a mortalidade infantil. As pessoas costumavam usar amuletos e feitiços para se protegerem da influência maligna de Lilith. Frequentemente, escreviam essas medidas de segurança com os nomes de anjos ou outros deuses, demonstrando sua preocupação e disposição de fazer tudo o que fosse necessário para proteger suas famílias. Isso transforma Lilith em um símbolo ainda maior dos riscos que se escondem nas áreas obscuras e desconhecidas da vida e da morte.
Conclusão
A história de Lilith é uma narrativa complexa com temas de rebelião, liberdade e os lados mais sombrios de ser mulher. A sociedade atual vê sua história, que está sempre mudando, como um símbolo de força e resistência. Judith Plaskow escreveu em 2005 que o impacto duradouro de Lilith é sua capacidade de questionar os papéis tradicionais de gênero e mostrar como é complicado ser mulher por conta própria. Plaskow diz que Lilith é o exemplo mais forte da independência da mulher e da recusa em ceder à autoridade masculina, o que a torna uma figura-chave nas interpretações feministas do mito. A história de Lilith continua a comover e inspirar as pessoas, e serve como uma lição sobre como os mitos podem moldar e refletir a experiência humana.
Referências
Kaplan, B. F. (2002). Midrashic Women: Formations of the Feminine in Rabbinic Literature. Brandeis University Press.
Patai, R. (1990). The Hebrew Goddess (3rd ed.). Wayne State University Press.
Plaskow, J. (2005). The Coming of Lilith: Essays on Feminism, Judaism, and Sexual Ethics, 1972–2003. Beacon Press.
Russell, J. B. (1987). The Devil: Perceptions of Evil from Antiquity to Primitive Christianity. Cornell University Press.
Scholem, G. (1974). Kabbalah. Keter Publishing House.
Fonte: Connect Paranormal






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