Autor: Jeff O’Connor Tradução: Rafael Barros
Um dos primeiros sistemas religiosos estruturados conhecidos, os antigos panteões mesopotâmicos e Sumérios tinham muitos deuses controlando facetas da experiência humana e eventos naturais. Entre esses líderes sagrados, talvez nenhum tenha captado tão brilhantemente a complexidade da natureza humana quanto Ishtar, uma deusa cujo domínio incluía elementos aparentemente opostos da vida: amor e conflito, fertilidade e destruição, paixão e ira. Com sua adoração se estendendo por milhares de anos e impacto nas atividades religiosas em todo o antigo Oriente Próximo, Ishtar — a divindade feminina suprema da religião mesopotâmica — teve imensa relevância em muitas civilizações. Seu caráter complexo refletia todo o espectro do poder feminino, conforme entendido pelos antigos habitantes da Mesopotâmia, tornando-a uma das figuras divinas mais intrigantes da história religiosa humana.

Visão geral
Normalmente, as obras de arte antigas retratavam Ishtar como uma mulher de beleza deslumbrante, personificando o resumo do apelo feminino e da sexualidade. As obras de arte antigas mostravam-na com um rosto bonito, um corpo exuberante e adornada com joias caras e roupas reais que complementavam sua posição divina. Sua conexão com a estrela de oito pontas, seu emblema sagrado que geralmente acompanhava seu retrato ou sua coroa, tornava muitas representações distintas. Em certas representações, especialmente aquelas que destacavam sua qualidade guerreira, Ishtar parecia armada com armas e posicionada em cima de um leão, seu animal sagrado, simbolizando seu domínio e ira. Sua representação física às vezes inclui asas, enfatizando seu caráter celestial como a personificação de Vênus, o objeto mais brilhante no céu noturno, além da lua (Pryke, 2017).
As ações e o temperamento atribuídos a Ishtar eram tão diversificados e complexos quanto suas esferas de poder. Ela era retratada como sensual e apaixonada, capaz de sentir um amor e um desejo imensos, mas também capaz de sentir uma raiva terrível quando desprezada. Usando sua sexualidade como um dom e uma arma, as histórias mesopotâmicas a retratam como sedutora e vingativa. Ela sugere casamento ao herói Gilgamesh na conhecida Epopeia de Gilgamesh e, quando é rejeitada, envia o Touro do Céu para destruir sua cidade em represália. Esse episódio captura com precisão seu caráter explosivo e os terríveis resultados de sua irritação. Ishtar tinha qualidades terríveis, mas também demonstrava um amor imenso por seus seguidores, proporcionando segurança, fertilidade e prosperidade àqueles que a respeitavam corretamente por meio de rituais e oferendas (Harris, 1991).

Função e Impacto
Ishtar desempenhou um papel muito importante dentro do panteão mesopotâmico, atuando como um elo entre vários mundos divinos. A natureza mista de Vênus como deusa do amor e da guerra ligava os poderes criativos e destrutivos do universo; sua encarnação conectava as esferas celestial e terrestre. Sua relação com outros deuses era complexa; dizia-se que ela era filha da divindade lunar Sin, irmã do deus solar Shamash e consorte de vários deuses masculinos, incluindo Tammuz, cuja morte e ressurreição anuais marcavam as estações agrícolas. Enfurecidos, até mesmo os grandes deuses tratavam Ishtar com cautela devido ao seu potencial de perturbar o equilíbrio cósmico. Ela encarnava, em muitos aspectos, uma autoridade feminina que complementava e, ocasionalmente, subvertia a ordem divina essencialmente masculina.
O desenvolvimento da história de Ishtar ao longo do tempo expõe a maravilhosa flexibilidade de sua religião entre várias civilizações e épocas históricas. Originalmente reverenciada pelos Sumérios como Inanna, seu culto foi adotado e modificado pelos acádios, babilônios e assírios, cada um enfatizando facetas distintas de seu caráter multifacetado. Sua função como deusa da fertilidade dominava os costumes sumérios mais antigos; mais tarde, o culto assírio enfatizou suas qualidades bélicas, refletindo assim o caráter militarista daquele estado. Seu impacto foi além da Mesopotâmia propriamente dita, pois ela se conectava com a Ísis egípcia, a deusa cananeia Astarte e a arábica Athtar. Os pesquisadores observaram semelhanças entre Ishtar e a deusa grega Afrodite, demonstrando o poder contínuo de seu significado arquetípico, já que elementos do culto a Ishtar permearam os costumes helenísticos, apesar do declínio da civilização mesopotâmica (Sugimoto, 2014).
Com o tempo, os rituais relacionados ao culto a Ishtar mudaram bastante para refletir as mudanças na realidade social e política. A devoção inicial celebrava a relação da deusa com a fertilidade e a regeneração por meio de templos onde eram realizados rituais sexuais sagrados. Mais tarde, surgiu um culto mais estruturado e patrocinado pelo Estado, à medida que os governantes reivindicavam laços particulares com a deusa para justificar sua autoridade. Construída pelo rei Nabucodonosor II por volta de 575 a.C., a famosa Porta de Ishtar da Babilônia é uma evidência de sua importância contínua na religião babilônica tardia. À medida que as religiões monoteístas se tornaram mais populares no Oriente Próximo, as pessoas deixaram de adorar Ishtar diretamente. Alguns pesquisadores acreditam que partes de sua adoração foram incorporadas ao culto à Virgem Maria no cristianismo primitivo, especialmente em locais onde a adoração a Ishtar era forte. Isso mostra como arquétipos religiosos fortes podem mudar em vez de desaparecer completamente (Stuckey, 2008).
Além da história religiosa, a curiosidade contínua em relação a Ishtar se estende ao campo do simbolismo cultural e da percepção psicológica. Pesquisadoras feministas modernas descobriram que Ishtar serve como uma representação inicial do poder feminino, abrangendo sexualidade, violência, maternidade e independência — qualidades que as religiões patriarcais posteriores tipicamente separaram artificialmente. Recontada em A Descida de Inanna, sua imersão no submundo oferece uma metáfora potente para a mudança psicológica que remete às ideias junguianas da integração do eu sombra. As interpretações modernas de Ishtar a veem como um reflexo de toda a gama da experiência feminina, livre das dicotomias subsequentes que separariam os arquétipos femininos em mães amorosas ou sedutoras terríveis. Para aqueles que tentam compreender os aspectos psicológicos da divindade e a evolução histórica das ideias de gênero, sua complexidade fornece inspiração contínua (Marcovich, 1996).
Conclusão
Ishtar está entre os seres divinos mais intrigantes da história, pois reflete uma complexidade que atesta a profundidade da filosofia religiosa da antiga Mesopotâmia. Sua dupla personalidade como deusa do amor e da guerra, sua forma física impressionante e sua posição de destaque no panteão refletem o complexo conhecimento teológico das sociedades que a reverenciavam. Suas características básicas permaneceram claras mesmo quando sua adoração mudou para se adequar a novos contextos culturais, comprovando a capacidade de resiliência de sua força arquetípica ao longo de milhares de anos de evolução religiosa. Ishtar oferece um vislumbre de como as antigas civilizações compreendiam o divino feminino, a ligação entre criatividade e destruição e as qualidades sagradas da sexualidade humana atual, à medida que os especialistas continuam explorando a antiga religião mesopotâmica. Sua história nos lembra que, assim como a deusa que governava o amor e a guerra nos primórdios da civilização, os deuses criados pelos humanos frequentemente refletem nossa própria natureza complexa — incorporando tanto nossos objetivos mais elevados quanto nossos impulsos mais sombrios.
Referências
Harris, R. (1991). Inanna-Ishtar as paradox and a coincidence of opposites. History of Religions, 30(3), 261-278.
Kovacs, M. G. (1989). The Epic of Gilgamesh. Stanford University Press.
Marcovich, M. (1996). From Ishtar to Aphrodite. Journal of Aesthetic Education, 30(2), 43-59.
Pryke, L. M. (2017). Ishtar. Routledge.
Stuckey, J. (2008). Spirit possession and the goddess Ishtar in ancient Mesopotamia. Matrifocus: Cross Quarterly for the Goddess Woman Samhain, 8-1.
Sugimoto, D. T. (2014). Transformation of a Goddess: Ishtar-Astarte-Aphrodite (Vol. 263). Academic Press/Vandenhoeck & Ruprecht.
Fonte: Connect Paranormal






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