Autor: José Antonio Campoy Tradução de: Rafael Barros
O sincretismo religioso do cristianismo, um ramo que acabou se separando do judaísmo quando os fundadores do movimento entenderam que o Messias tão esperado por eles e anunciado por seus profetas era Jesus de Nazaré, significou que todas as crenças antigas do “povo escolhido” foram assumidas como suas, e até hoje o Antigo Testamento é considerado um livro “sagrado”. Isso, à luz de nosso conhecimento atual, parece irracional. Por exemplo, entre as crenças mais difundidas é a de que Yahweh era Deus e que, consequentemente, quando Jesus se dirigia ao Pai, ele estava se dirigindo a Yahweh. Isso é absolutamente ridículo. Vejamos por quê.

A versão grega do Antigo Testamento traduziu a palavra hebraica berit (“aliança”) por diathéke, que significa “disposição”, daí o uso do termo testamentum na Vulgata (versão latina da Bíblia, a única versão oficial da Igreja Católica latina desde o Concílio de Trento, em 1546) e, portanto, o nome Antigo Testamento para designar a ‘Aliança’ que Yahweh concluiu com Israel, em oposição ao Novo Testamento, que reflete a ‘Nova Aliança’ selada por Jesus Cristo.
Em outras palavras, e de forma simplificada, para os judeus, o único “livro sagrado”, a Bíblia, é o que o Antigo Testamento é para os cristãos. Ou seja, uma coleção de livros históricos, em sua maioria escritos em hebraico, que foram compilados ao longo de oito séculos para formar o bloco atual. Livros que eram considerados “revelados” e cujo conteúdo era consequentemente considerado a “palavra de Deus”.
E, no entanto, o discurso de Cristo foi tão devastador para essas crenças que a maioria dessas regras e preceitos se tornaram obsoletos, se suas palavras fossem ouvidas – e compreendidas. O fato é que os seguidores de Jesus eram judeus, ele próprio foi treinado nos ensinamentos tradicionais – lembre-se de sua intervenção no templo diante dos doutores da Lei – e não deve ter sido fácil para seus discípulos entenderem que o Deus do qual ele falava não correspondia – nem de longe – a Yahweh. De fato, uma contradição tão óbvia enlouqueceu os exegetas e teólogos, até que chegaram a um sincretismo tão singular que Yahweh passou a ser considerado um Deus “justo e misericordioso”, como se as duas qualidades fossem compatíveis. Pois ou se é “justo” – e, em termos gráficos, quem faz, paga – ou se é misericordioso – e então se exerce o perdão e não a justiça. Resumindo, ou você acredita no Deus de Amor que Jesus pregou ou no Deus ciumento, tirano, sanguinário e cruel que era Yahweh. E se tiver alguma dúvida sobre o caráter desse personagem, basta ler a Bíblia ou, pelo menos, prestar atenção aos parágrafos a seguir, extraídos do texto bíblico.
Um Yahweh matador
O Antigo Testamento relata, por exemplo, que quando Corá se rebelou contra Moisés, Moisés ordenou que ele comparecesse com 250 de seus homens carregando incensários diante de Yahweh na porta da Tenda da Reunião. E quando eles chegaram, juntamente com o restante da comunidade, Moisés disse: “Com isso, vocês saberão que Yahweh me enviou para fazer todas essas obras, e que não é obra minha: se esses homens morrerem como qualquer mortal morre sob a sentença comum a todos os homens, é porque Yahweh não me enviou. Mas se Yahweh fizer algo poderoso, se a terra abrir a boca e os engolir com tudo o que lhes pertence, e eles descerem vivos ao Sheol (as profundezas da terra), então vocês saberão que esses homens rejeitaram Yahweh”. E sucedeu que, acabando ele de dizer estas palavras, o chão se abriu debaixo deles; a terra abriu a sua boca e os tragou, com todas as suas famílias, como também a todos os homens de Corá, com todos os seus bens” (Números 16:28-30). Acrescenta-se ainda que “saiu fogo de Yahweh e devorou os 250 homens que haviam oferecido o incenso” (Números 6:35).

Alguma dúvida de como Yahweh costumava ser? Bem, mais tarde, ao relatar um dos episódios durante a jornada de 40 anos do “povo escolhido” pelo deserto – o que, por si só, sugere que Yahweh devia ser dado a brincadeiras ou ter um temperamento muito ruim -, a Bíblia narra como os judeus começaram a ficar impacientes, sem entender o que estavam fazendo, dando voltas e voltas sem chegar a lugar algum, e então expressaram essa preocupação a Moisés. Bem, a reação de Yahweh não foi exatamente compreensiva, mas “sóbria”. É o que diz Números 21,6: “Então Yahweh enviou serpentes ardentes contra o povo, e elas morderam o povo, e muitos do povo de Israel morreram”. Isso é suficiente para fazer qualquer um protestar.
Um Yahweh “ciumento” e possessivo
A característica possessiva e ciumenta desse Yahweh também é impressionante. E, é claro, é surpreendente que ele fosse tão cauteloso ao exigir fidelidade, expressando abertamente o medo de que “seu” povo pudesse decidir abandoná-lo e ir “para outros deuses”. Basta ler em Deuteronômio 7:9-10 a advertência que ele fez a Moisés: “Sabe, pois, que Yahweh, teu verdadeiro Deus, o Deus fiel, que guarda a aliança e o amor por mil gerações aos que o amam e guardam os seus mandamentos, mas que dá o que lhe é devido em sua própria pessoa aos que o odeiam, destruindo-o”. Em seguida, ele advertiu: “Mas se vocês se esquecerem de Yahweh, o seu Deus, se seguirem outros deuses, se os adorarem e se curvarem diante deles, eu lhes declaro hoje que vocês perecerão. Assim como as nações que Yahweh destrói no caminho de vocês, vocês também perecerão, porque desprezaram a voz de Yahweh, o seu Deus” (Deuteronômio 8:19-20). Outros “deuses”? Yahweh temia que seu povo preferisse outros “deuses”? Bem, para ser sincero, ele nos parece um “deus” muito humano.
Um Yahweh torturador
E não se trata apenas do fato de que ele era vingativo. Pois basta ler o episódio em que se narra que Israel se estabeleceu em Shittim e o povo de Yahweh – modelo deles – começou a “fornicar com as filhas de Moabe” e a se prostrar diante de seus deuses, para ver a reação que tiveram: “Yahweh disse a Moisés: “Pegue todos os líderes do povo e empale-os ao sol em honra de Yahweh; assim, o furor da ira de Yahweh será afastado de Israel”. Moisés disse aos juízes de Israel: “Matem cada um de vocês que aderiram a Baal de Peor” (Números 25:4-5). Acrescentando mais tarde que “vinte e quatro mil morreram dessa praga” (Números 25:9).

Resumidamente, além de assassino, ele era um torturador capaz de empalar – técnica que consiste em inserir um grande bastão através do ânus e da boca de uma pessoa – qualquer um que, em sua opinião paranoica, o traísse.
Um Yahweh vingativo
Também em Números 31:2, lemos como Yahweh diz a Moisés: “Faça com que os israelitas se vinguem dos midianitas”. Bem, de acordo com o mesmo texto, os israelitas mataram todos os homens e “”levaram presas as mulheres dos midianitas e seus filhos, e saquearam seus animais, seus rebanhos e manadas e todos os seus bens. Incendiaram todas as cidades em que habitavam e todos os seus acampamentos” (31:9-10). E não satisfeito com isso, Moisés ordenou que matassem “todas as crianças do sexo masculino” e “todas as mulheres que já conheceram o homem”. Um discípulo digno de um mestre tão criminoso.
Um Yahweh pirata
Mas ainda há mais, pois o mesmo texto comenta como o “povo escolhido” dividiu o espólio após o saque – incluindo nessa ocasião as 32.000 mulheres “que não haviam dormido com homem algum” (ou seja, virgens) -, deixando bem claro que Yahweh também participou disso (Números 31:28). De fato, a parte do saque que Yahweh levou está refletida no texto bíblico, onde fica explícito que 675 cabeças de ovelhas, 72 cabeças de gado e 61 cabeças de jumentos, bem como 32 prisioneiros (Números 31, 32-40), correspondiam a ele. Esse saque foi completado, como lemos em Números 31:52, com dinheiro: “O total do ouro do depósito que eles guardaram para Yahweh, das cabeças das milhares e das centenas, foi de 16.750 siclos”. E não podemos deixar de nos perguntar para que “Deus” queria tanto gado, dinheiro e 32 escravos (talvez mulheres?).

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Um Yahweh imoral
E o leitor não deve pensar que os preceitos e as regras desse Yahweh têm algo a ver com os formulados por Jesus. Basta ler o Código Deuteronômico (ver Deuteronômio 12 a 28) para comprovar de que tipo de personagem estamos falando e que ética peculiar ele tinha, mais típica de uma mente doentia do que de Deus. E aqui está um exemplo: “Se um homem encontrar uma jovem virgem que não esteja comprometida, agarrá-la e deitar-se com ela, e se forem apanhados, o homem que se deitar com ela dará ao pai da moça cinquenta moedas de prata; ela será sua mulher, porque ele a violou, e não poderá divorciar-se dela enquanto viver” (Deuteronômio 22:28). (Deuteronômio 22, 28-29). Comentários não são necessários.
Um Yahweh assassino
E não se deixe enganar, amigo leitor. Não é que Yahweh fosse um assassino: ele era um verdadeiro assassino. Vamos dar uma olhada em alguns exemplos.
Ao falar da conquista do reino de Sijon, Moisés conta como Yahweh ordenou que ele se apoderasse daquele território e da batalha que ocorreu em Yahash, confessando: “Apoderamo-nos então de todas as suas cidades e consagramos cada cidade ao anátema: homens, mulheres e crianças, sem deixar sobrevivente algum” (Deuteronômio 2.34). Isso se repetiria com a conquista do reino de Ogue, e o texto bíblico também reconhece que eles mataram todos os seus habitantes, não deixando “nenhum sobrevivente” (Deuteronômio 3:3).

E o que dizer do extermínio cometido pelo povo israelita contra os benjaminitas por ordem expressa de Yahweh? Assim, podemos ler em Juízes 20:35: “Yahweh derrotou Benjamim diante de Israel, e naquele dia os israelitas mataram em Benjamim vinte e cinco mil e cem homens, todos armados com espadas”, acrescentando mais adiante que eles então “passaram à espada os homens da cidade, o gado e tudo o que encontraram”. Isso, além de incendiar todas as cidades em seu caminho (Juízes 20:48).
E caso alguém ainda tenha alguma dúvida sobre o caráter desse Yahweh, vejamos o que Samuel diz a Saul, por ordem de Yahweh, em relação à guerra que travaram com os amalequitas: “Agora vai e castiga a Amaleque, e consagra-o ao anátema com tudo o que tem; não tenhas piedade dele, mata homens e mulheres, crianças e lactantes, bois e ovelhas, camelos e jumentos” (I Samuel 15:3). O resultado? De acordo com o texto bíblico, Saul “tomou vivo a Agague, rei dos amalequitas, e passou todo o povo à espada, em cumprimento da maldição” (I Samuel 15:8).

Lembremos, por fim, que a batalha entre os israelitas liderados por Asa e Judá e o milhão de etíopes! liderados por Zerá, terminaria – ainda de acordo com o texto bíblico – com a morte de todos eles “até que não restasse nenhum vivo” (II Crônicas, 14, 12). Um milhão de mortos, então?
Epílogo
O leitor não deve pensar que o que é narrado neste artigo é um resumo abrangente dos atos mais abomináveis de Yahweh; é apenas uma pequena amostra. O número de atos desprezíveis que podemos encontrar no Antigo Testamento é muito maior. De minha parte, só me resta fazer uma pergunta: você realmente ainda acredita que Yahweh era Deus?
Fonte: Mystery Planet






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