Autor: Mystery Planet                      Tradução: Rafael Barros

Recentemente, o egiptólogo Zahi Hawass — figura emblemática e mediática da arqueologia egípcia — foi convidado para o podcast de Joe Rogan. Em uma longa conversa, Hawass demonstrou seu entusiasmo característico e defendeu sua visão ortodoxa sobre as pirâmides, a construção do complexo de Gizé e as capacidades técnicas do antigo Egito. No entanto, uma afirmação sua chamou a atenção de muitos ouvintes: ele negou conhecer qualquer lista de reis pré-dinásticos.

Será que uma civilização pré-dinástica poderia ter construído alguns dos monumentos egípcios utilizando técnicas e conhecimentos perdidos nas areias do tempo? Crédito: MysteryPlanet.com.ar.

Embora não tenha dito isso diretamente com essas palavras exatas, quando Rogan mencionou teorias alternativas sobre civilizações anteriores e perguntou sobre evidências esquecidas ou destruídas (como na Biblioteca de Alexandria), Hawass respondeu com ceticismo. Ele disse que tudo o que sabemos é baseado em evidência arqueológica verificável e que ele nunca viu provas de civilizações avançadas anteriores ao Egito dinástico.

Essa postura é representativa da abordagem acadêmica tradicional. Mas será verdade que não há nenhuma lista, vestígio ou memória de reis anteriores a Narmer, considerado o primeiro faraó histórico do Egito e o unificador do Alto e Baixo Egito por volta de 3100 a.C.? E quanto aos textos do Templo de Edfu ou às tabuletas descobertas em Abydos? Será que toda a era pré-dinástica é um mito moderno?

A história perdida antes da história

Ao contrário do que Hawass entende, existem sim registros — arqueológicos e mitológicos — de figuras reais anteriores à Primeira Dinastia. Embora dispersos e muitas vezes fragmentários, esses testemunhos nos falam de governantes que existiram antes da unificação do Egito, numa época em que os próprios egípcios descreviam como o tempo dos deuses.

Escavações em locais como Abydos, Hieracópolis e Naqada revelaram tumbas e objetos com inscrições que referem nomes como Ka, Iri-Hor, Escorpião I e II e, finalmente, Narmer. Essas descobertas não fazem parte de uma “lista” formal como a do Templo de Seti I, mas constituem uma sequência coerente de lideranças regionais que prepararam o caminho para o Egito faraônico.

Mas, além da arqueologia, existem outros textos que nos levam a pensar que os antigos egípcios tinham uma memória muito mais profunda de sua história. O Templo de Edfu, por exemplo, relata em suas paredes o chamado Zep Tepi ou “Primeira vez”, quando o mundo era governado não por homens, mas por deuses: Rá, Shu, Geb, Osíris, Seth, Hórus, entre outros. Essa era mitológica não era simbólica para eles; fazia parte de sua compreensão da ordem cósmica.

A essa narrativa somam-se os relatos conservados por Manetão, sacerdote egípcio do século III a.C., que escreveu uma cronologia em que os primeiros reis eram seres divinos que reinaram durante milhares de anos, seguidos por semideuses, heróis e, finalmente, humanos. (Se você estiver interessado em aprofundar este último assunto, recomendamos nosso artigo Cronologias impossíveis).

Relevo no templo de Edfu. Crédito: John Campana.

Ignorância ou estratégia?

Então, por que Hawass afirma não ter ouvido falar dessas “listas”? A resposta pode estar menos na falta de conhecimento e mais em uma estratégia de comunicação. Durante a entrevista, o egiptólogo insiste repetidamente que tudo o que afirma é baseado em evidências diretas, escavações pessoais e descobertas publicadas. Ele se mostra relutante em discutir qualquer coisa que cheire a especulação. Mesmo diante da menção de tecnologias modernas, como a tomografia por satélite para ver estruturas ocultas sob as pirâmides, ele prefere descartá-las por não serem validadas por sua própria equipe científica.

Nesse contexto, qualquer referência a reis pré-dinásticos — especialmente se não vier de fontes centralizadas ou instituições reconhecidas — fica fora de seu quadro de legitimidade. E embora essa postura proteja a disciplina do sensacionalismo, ela também limita o diálogo sobre períodos menos explorados, como a pré-história egípcia.

Um olhar para o passado mais distante

Durante o mesmo episódio do podcast, Joe Rogan mencionou Göbekli Tepe, o enigmático sítio arqueológico na Turquia datado de cerca de 9500 a.C., considerado por muitos como o templo mais antigo do mundo. É um local que desafia a narrativa convencional: foi construído por uma cultura pré-agrícola, com um planejamento arquitetônico impressionante, sem deixar vestígios de cidades próximas ou hierarquias conhecidas.

Quando Rogan o apresenta como prova de que civilizações avançadas podem ter existido muito antes do que se acreditava, Hawass rapidamente descarta a comparação, insistindo que não há evidências de que tal conhecimento tenha existido no Egito antes dos faraós.

Göbekli Tepe, o santuário mais antigo do mundo, localizado em Sanliurfa (“também conhecida como Urfa”), no sudoeste da Turquia. O local foi construído por caçadores-coletores no décimo milênio a.C. (há cerca de 11.500 anos), antes do início da sedentarização. Misteriosamente, todo esse complexo de pedras, pilares e esculturas foi deliberadamente enterrado por volta de 8000 a.C., permanecendo abandonado por um período de 500 anos.

Mas a existência de Göbekli Tepe prova, pelo menos, que a humanidade possuía habilidades técnicas, simbólicas e sociais para construir o impossível… milhares de anos antes das pirâmides. Se isso aconteceu no sudoeste da Anatólia, por que seria impensável no fértil vale do Nilo?

Talvez, em vez de procurar uma “lista de reis”, devêssemos aprender a ler as ausências com a mesma atenção que as presenças e considerar que os silêncios da história nem sempre significam que não há nada a dizer… mas que ainda não sabemos como ouvi-los.

Fonte: Mystery Planet

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