Autor: Mystery Planet
Tradução de: Rafael Barros
Filippo Biondi, um dos autores do recente estudo que afirma ter encontrado infraestrutura na pirâmide de Quéfren, explicou em detalhes como a tecnologia funciona e como ela tem sido mal compreendida tanto pela mídia de massa quanto por seus principais críticos.

Quem é Filippo Biondi?
O professor Filippo Biondi é PhD em Engenharia de Telecomunicações pela Universidade de L’Aquila (Itália) e lecionou em instituições como a Universidade de La Sapienza, em Roma, e a Universidade de Strathclyde, na Escócia. Ele é especialista em processamento de sinais usando radar de abertura sintética (SAR) e tomografia Doppler, tecnologias que aplicou a uma variedade de contextos científicos e industriais, desde o monitoramento estrutural de pontes até a pesquisa geofísica subterrânea. Seu projeto atual, Harmonic SAR, visa revolucionar a maneira como esses radares são usados para estudar o subterrâneo da Terra e outros ambientes difíceis de pesquisar.
Recentemente, ele foi coautor de um estudo que provocou um debate acadêmico após anunciar a descoberta de possíveis estruturas subterrâneas colossais sob a pirâmide de Quéfren e em outras áreas do planalto de Gizé. De acordo com o estudo, essas descobertas foram possíveis graças a uma técnica avançada de análise de radar e Doppler, desenvolvida e patenteada pelo próprio Biondi.
A técnica: mais que radar, uma “tomografia acústica” do espaço
Em uma entrevista recente com Jay Anderson, do Project Unity, o especialista em radares esclareceu dúvidas e esclareceu o que até agora parece ter sido um mal-entendido ou uma distorção total por parte de alguns meios de comunicação.
O ponto central dessa pesquisa, explicou ele, é um método que transforma os radares de satélite em uma espécie de “microfone gigante” em órbita. Ao contrário dos radares convencionais, que somente fornecem imagens da superfície, o algoritmo de Biondi usa o efeito Doppler para capturar e reconstruir as vibrações da parte subterrânea, gerando imagens tomográficas tridimensionais.
“Não estamos apenas olhando para uma imagem; estamos ouvindo o eco devolvido pela Terra. Como um ultrassom gigante, coletamos dados que nos permitem ver através do solo, reconstruir formas, vazios e densidades. É uma tomografia remota feita com som eletromagnético”, disse ele na entrevista.
Esse processamento foi aplicado a centenas de varreduras tomográficas obtidas pelo satélite japonês ALOS PALSAR. O resultado foi uma série de modelos 3D que revelaram padrões geométricos subterrâneos: estruturas lineares, ângulos retos, espirais e vazios organizados que dificilmente podem ser atribuídos a fenômenos naturais.
No caso de Gizé, os autores do estudo que utilizou essa tecnologia alegam ter detectado estruturas que se estendem por 600 metros a partir da base da pirâmide de Quéfren, com anomalias adicionais que atingem até 2 quilômetros de profundidade em outras áreas do planalto. As imagens sugerem a presença de câmaras, túneis e sistemas complexos, cuja finalidade e origem ainda precisam ser investigadas e verificadas.
Crítica e respostas
Desde que os resultados foram publicados, não faltaram críticas, especialmente dos setores mais conservadores da egiptologia e da geofísica, que reagiram de forma excepcionalmente agressiva à viralização dessas informações.
Uma das principais objeções é que o radar de abertura sintética (SAR) sozinho não consegue penetrar no solo a profundidades de centenas de metros ou quilômetros, como relata o estudo.
Ele não está usando o radar SAR como uma câmera que “olha” diretamente para a subsuperfície, mas como um transmissor-receptor de sinais que são processados por um algoritmo projetado para detectar e amplificar sinais de ressalto de fontes profundas, especialmente aqueles reverberados e modulados por estruturas subterrâneas.

“Não estamos dizendo que um único sinal penetra dois quilômetros no subsolo. O que fazemos é processar milhares de registros de sinais de satélite em diferentes momentos e ângulos e, a partir da análise harmônica Doppler, reconstruímos como determinadas ondas se propagam, são amplificadas ou moduladas por estruturas enterradas. É como fazer uma tomografia por meio da coerência espectral do eco eletromagnético”, disse Biondi.
Essa abordagem aumenta a sensibilidade do radar SAR tradicional usando uma técnica semelhante à síntese de frequência temporal, que é comum em pesquisas sísmicas e imagens de ressonância médica. Portanto, embora o radar em si não “enxergue” 2 km, o modelo matemático pode detectar padrões nos ecos distantes que indicam a existência de vazios, densidades ou objetos reflexivos em grande profundidade.
Nas palavras do próprio Biondi: “Não usamos um sinal, usamos um sistema de tomografia virtual que é construído pela acumulação e correlação de centenas de sinais. É como criar uma ressonância magnética do solo com base em como ele vibra na presença de micro-ondas.

Além disso, o pesquisador esclarece que essa abordagem já foi aplicada com sucesso em outras áreas em que era necessária uma penetração profunda, como em estudos de águas fossilizadas ou na detecção de cavidades sob barragens.
Com relação à ambiguidade das imagens e à falta de escavações físicas que as comprovem, Biondi respondeu: “Meus algoritmos não interpretam imagens como se fossem fotos; eles analisam o comportamento físico das ondas refletidas em uma variedade de materiais. Não se trata de arte ou especulação: são dados precisos e reproduzíveis.
Também vale a pena observar que a equipe disponibilizou publicamente os dados e a metodologia.
“Qualquer pessoa que tenha dúvidas pode replicar a análise usando os mesmos dados de satélite. Não há nada oculto”, acrescentou.
Um novo paradigma na arqueologia
Para Armando Mei, outro membro da equipe do estudo, o objetivo desse trabalho não é substituir a arqueologia tradicional, mas complementá-la com ferramentas modernas. “Recusar-se a considerar esses resultados por preconceito é anticientífico. O que estamos propondo é uma base para futuras escavações guiadas por dados reais”, disse ele.
O Projeto SAR Quéfren, como a pesquisa tem sido chamada, continua seu trabalho e planeja aplicar essa tecnologia a outros sítios arqueológicos em todo o mundo, como Göbekli Tepe, Gunung Padang e as supostas pirâmides da Bósnia.
Conclusões finais
Como disse na entrevista, então, nos permite chegar as seguintes conclusões honestas:
- A mídia divulgou de forma incorreta o estudo? Sem dúvida, sim, e resta saber se isso ocorreu por ignorância técnica, falta de vontade investigativa ou diretamente com o objetivo de desacreditar qualquer pesquisa que desafie a narrativa estabelecida. O que é certo é que foi um youtuber, e não um veículo da mídia convencional, que se deu ao trabalho de ir direto à fonte, fazer as perguntas difíceis e permitir que o próprio autor explicasse seu método sem distorções. Isso, por si só, diz muito sobre o estado atual do jornalismo científico e seu papel na validação – ou rejeição – de novas ideias.
- É tecnicamente possível o que disse. Em parte, sim, e a lógica por trás do processamento harmônico Doppler explicado pelo SAR é interessante e plausível
- É cientificamente comprovado. Ainda não. Falta ver se os outros grupo o replicam e sobretudo, se as escavações no terreno confirmam o que seu modelo prediz.
- Está enganando? Não necessariamente. Biondi parece estar convencido de seu método, e o tem explicado com transparência. Mas ele pode estar interpretando os dados de forma exagerada, uma ocorrência comum quando uma descoberta se aproxima dos limites do que a tecnologia permite.
Se pesquisas posteriores, especialmente por terceiros, comprovarem essas descobertas, o impacto será histórico: isso reabrirá o debate sobre a verdadeira origem, função e complexidade do complexo de Gizé e, possivelmente, de toda a civilização que o construiu.
Fonte: Mystery Planet





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