Autora: Natalia Klimczak Tradução de: Rafael Barros
Em alguns textos descreve-se como um demônio em outros é um ícone da que foi uma das deusas mais obscuras do paganismo. Lilith é um dos mais antigos espíritos femininos conhecidos no mundo. Suas raízes encontramo-los no famoso poema épico de Gilgamesh, mas também é mencionada na Bíblia e no Talmud.
Na tradição judaica, é considerada um dos piores demônios, ainda que em outras fontes aparece como a primeira mulher criada na Terra. Segundo certa lenda, Deus deu forma a Lilith como a primeira mulher. O fez da mesma maneira que criou Adão, com uma única diferença em vez de utilizar como matéria prima unicamente terra limpa também usou lixo e impurezas. Tradicionalmente se tem considerado que Lilith “a noite” e está associada a atributos ligados aos aspectos espirituais da sensualidade e da liberdade, mas também ao terror.
Antigo demônio sumério
O nome de Lilith provêm da palavra suméria “lilitu”, que significa espírito do vento ou demônio feminino. Menciona-se Lilith na Tabuleta XII da Epopeia de Gilgamesh, um famoso poema épico da antiga Mesopotâmia que se remonta numa época em torno de 2100 a.C. Essa tabuleta foi adicionada ao texto original muito mais tarde, por volta de 600 a. C., nas suas traduções posteriores assírias e acadianas. Lilith também aparece representado pelas ramas de uma arvore num relato sobre magia. É descrita junto com outros demônios, embora os pesquisadores ainda não tenham chegado a um acordo sobre se tratava de um demónio feminino ou de uma deusa das trevas. Simultaneamente, também aparece em antigos textos judaicos, de modo a ser difícil descobrir, quem a mencionou pela primeira vez. No entanto parece claro que desde o começo de sua presença nas fontes escritas, está associada à feitiçaria suméria.

No Talmud babilônico descreve-se Lilith como um espírito obscuro com uma sensualidade perigosa e incontrolável. Diz-se que ela se fertiliza com o esperma masculino que não fertiliza nenhuma mulher, gerando assim demônios. Desse modo é considerada a mãe de milhares de demônio.

Lilith também era conhecida nas culturas hitita, egípcia, grega, hebraica e romana. Em tempos mais recentes, sua lenda chegou inclusive ao norte da Europa. Representava o caos e a sexualidade, e dizia-se que ela tinha o poder de lançar um feitiço nos homens. Seu mito também está relacionado com os mais antigos relatos de vampiros.
Esposa do Adão bíblico
Lilith aparece na Bíblia no livro de Isaías 34,14 que descreve a desolação do Éden. Desde o começo tem sido considerada um espírito diabólico, impuro e perigoso. O Gênesis Rabbah a descreve como a primeira esposa de Adão. Segundo esse texto, deus criou Lilith e Adão ao mesmo tempo. Lilith era muito forte, uma mulher independente e queria se relacionar com Adão como iguais. Não aceitava ser inferior a ele e se recusava a se deitar sob ele para acasalar. O casal obviamente não deu certo e nunca foram felizes. Como escreveram Robert Graves e Raphael Patai em seu livro “Os Mitos Hebraicos”:
Adão reclamou com Deus: “Minha companheira me abandonou”. Imediatamente, Deus enviou os anjos Senoy, Sansenoy e Semangelof para trazer Lilith de volta. Eles a encontraram perto do Mar Vermelho, uma região repleta de demônios lascivos, dos quais ela gerava mais de cem ‘lilim’ por dia. Lilith perguntou a eles: “Como eu poderia voltar para Adão e viver como uma dona de casa honesta depois de ter passado todo esse tempo no Mar Vermelho?” “Se você se recusar, morrerá”, responderam eles. “Como eu poderia morrer”, perguntou Lilith novamente, “se Deus me ordenou que cuidasse de todos os recém-nascidos, de todos os meninos até o oitavo dia de vida, o dia da circuncisão, e de todas as meninas até o vigésimo dia? Entretanto, sempre que eu vir seus três nomes ou seus equivalentes escritos em um amuleto em uma criança recém-nascida, prometo poupar a vida dela”. Os anjos concordaram; mas Deus puniu Lilith fazendo com que cem de seus filhos demônios perecessem diariamente; e quando Lilith não pôde acabar com a vida de uma criança humana por causa do amuleto angelical, ela se voltou com ódio contra seus próprios filhos.
Por causa dos mal-entendidos e desentendimentos causados por Lilith, Deus decide criar uma segunda esposa para Adão: Eva.

Um ícone para pagãos e feministas
Atualmente, Lilith tem-se convertido num símbolo de liberdade para muitos grupos feministas. Graças ao crescente nível educacional da população, as mulheres compreenderam que poderiam ser independentes, de modo que começaram a buscar símbolos do poder feminino. Lilith também tem sido adorada como uma deusa por alguns seguidores da religião pagã Wicca, criada nos anos 50.
O apelo da personagem Lilith tem sido percebido por alguns artistas, que a adoravam como uma musa. Lilith começou a se tornar um motivo popular na arte e na literatura na época renascentista, quando Miguel Ángel a retratou como uma criatura metade mulher, metade serpente. O genial artista italiano a pintou enrolada na Árvore do Conhecimento, aumentando desse modo a importância da sua lenda. Com o passar do tempo, Lilith tornou-se ainda mais interessante para a imaginação de artistas masculinos como Dante, Gabriel Rosetti, que a retratou como a mais bela criatura feminina do mundo. Por sua vez, o autor de “As Crônicas de Nárnia”, C. S. Lewis, inspirou-se na lenda de Lilith para sua personagem da Bruxa Branca. Uma bela mulher, mas também perigosa e cruel. Lewis disse sobre a Bruxa Branca que ela era filha de Lilith, e que estava determinada a eliminar a linhagem de Adão e Eva.

No pensamento de James Joyce, no entanto, evocava uma imagem menos romântica de Lilith, a quem chamava “padroeira dos abortos”, Joyce introduziu na filosofia feminina, e deu início ao processo de sua adoção como deusa das mulheres independentes do século XX. À medida que as mulheres vão conseguindo mais direitos, começaram a manifestar a sua discordância com uma visão do mundo centralizada numa perspectiva masculina, incluindo o relato bíblico da criação do homem. O nome de Lilith aparece num Programa nacional de alfabetização de Israel, e é também o título de uma revista judaica para mulheres. A antiga e lendária mulher demoníaca dos mitos sumérios é um dos temas mais populares da literatura feminista em relação com a antiga mitologia. Os pesquisadores ainda continuam debatendo se foi criada como demônio ou se trata de uma improvável advertência do que se pode ocorrer em casa de que se concede um poder maior às mulheres.
Imagem da capa: Lilith, um anjo de aspecto satânico. (CC BY-NC 2.0)
Fonte: ANCIENT ORIGINS ES






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